Papo Econômico

O Twitter vai pagar criador em vários países. O Brasil não está na lista

O X, antigo Twitter, encerra o Creator Revenue Sharing em 7 de setembro de 2026 e abre no dia seguinte o Original Content Rewards, com régua dez vezes menor. O Brasil, que recebia desde 2023, não aparece na lista de países com suporte a pagamento.

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O que muda, e quando

O X, antigo Twitter, anunciou em 7 de agosto de 2026 que vai trocar o programa que remunera criador de conteúdo. O programa velho chama Creator Revenue Sharing. O novo chama Original Content Rewards.

As datas são estas:

  • 7 de agosto de 2026. O programa velho para de aceitar novas inscrições.
  • 7 de setembro de 2026. O programa velho acaba, para todo mundo, no mundo inteiro.
  • 8 de setembro de 2026. O programa novo abre para quem pode se inscrever.

Vale sublinhar o “para todo mundo”, porque é fácil ler a notícia errado: o fim do Revenue Sharing não é uma punição ao Brasil. Ele acaba na Alemanha, no Japão e nos Estados Unidos também. O que é específico do Brasil é outra coisa, e vem no meio do texto.

O calendário da troca, como anunciado pelo X em 7 de agosto de 2026. Fonte: anúncio oficial, via The Next Web e Punch.
7 ago 2026fecha para novos7 set 2026o programa velho acaba8 set 2026o programa novo abre

A porta ficou mais larga, não mais estreita

O detalhe que muda a leitura da notícia é a régua de entrada.

No programa velho, era preciso acumular 5 milhões de impressões em três meses. No programa novo, são 500 mil impressões da linha do tempo, vindas de usuários verificados, nos 90 dias anteriores. Continuam valendo os 500 seguidores verificados, a assinatura paga e a idade mínima de 18 anos.

Uma observação de honestidade, porque as duas contas não medem exatamente a mesma coisa: a régua velha falava de impressões orgânicas e a nova fala de impressões vindas de usuários verificados. Não dá para dizer que ficou “dez vezes mais fácil qualificar”. O que dá para dizer, e é o que interessa, é que a ordem de grandeza da exigência caiu de milhões para centenas de milhares.

A exigência de impressões no programa velho e no programa novo. Fonte: página oficial do Creator Revenue Sharing e anúncio do Original Content Rewards.
programa velho5.000.000programa novo500.000impressões para entrar

Ou seja, o X abriu mais a porta. E é por isso que a ausência do Brasil não se explica por tamanho de audiência.

O Brasil não está na lista

Segundo apuração do Metrópoles publicada em 7 de agosto de 2026, o Brasil não aparece entre os países com suporte a pagamento do programa novo. Criadores brasileiros recebiam normalmente desde o fim de agosto de 2023, quando a monetização foi liberada no país.

Aqui entra uma distinção que parece pequena e não é. O X publica a lista de quem pode entrar, não a lista de quem ficou de fora. Não existe um documento dizendo “o Brasil está barrado”. Existe uma lista de países disponíveis, e o Brasil não está nela. A ausência é lida por omissão.

Há um segundo grupo, e ele é um caso diferente, que não deve ser confundido com o primeiro: os termos do programa antigo proibiam expressamente a participação de pessoas em Cuba, Irã, Coreia do Norte, Síria e na região da Crimeia. Esses estão barrados por texto escrito, por sanção. Não é a mesma situação de um país que simplesmente não consta de uma lista.

Por que não vamos dizer o motivo

O X não declarou por que o Brasil ficou de fora. E como não declarou, não vamos inventar.

Isso não é excesso de zelo. É que existem explicações plausíveis e completamente prosaicas: trilho de pagamento, já que a monetização só chegou ao Brasil em 2023 por causa do processador de pagamentos; tributação; câmbio; ou simplesmente um programa que está entrando em fases e ainda vai incluir mais países. O próprio Metrópoles registra a exclusão como sendo “num primeiro momento”.

O que dá para colocar na mesa são os fatos públicos do que aconteceu entre essa empresa e este país em 2024. Cada um deles é verificável isoladamente.

Em 30 de agosto de 2024, por decisão do ministro Alexandre de Moraes, a plataforma saiu do ar no Brasil. Voltou em 8 de outubro, depois de 39 dias fora. Para destravar o desbloqueio, a empresa pagou R$ 28,6 milhões em multas. Antes disso, em 24 de agosto, o mesmo ministro havia mandado bloquear as contas bancárias da Starlink, que é outra empresa e não era parte daquele processo, como garantia de pagamento das multas do X. Dessas contas bloqueadas, R$ 18,35 milhões acabaram transferidos para a União.

O bloqueio de 2024, do dia em que a plataforma saiu do ar até o dia em que voltou. Fonte: O Tempo, ConJur e Agência Brasil.
39 dias fora do ar30 ago 2024sai do ar8 out 2024voltaR$ 28,6 milhões pagos em multase contas da Starlink bloqueadas como garantia

Não estamos dizendo que uma coisa causou a outra. Estamos dizendo que nenhuma empresa do mundo esquece uma conta dessas na hora de montar uma lista, e que o leitor é perfeitamente capaz de tirar as próprias conclusões a partir de fatos que ele agora conhece.

Risco país não é um número num terminal

Toda empresa que opera fora de casa faz a mesma conta antes de entrar em algum lugar: quanto essa jurisdição me custa. Não é só imposto e salário. É quanto custa a chance de a regra mudar no meio do jogo, de uma decisão inesperada travar a operação, de o dinheiro ficar preso.

Esse cálculo tem nome, e é um nome que todo mundo já ouviu sem prestar muita atenção: risco país. Costuma aparecer como uma linha num gráfico de banco, o que faz parecer um assunto de investidor profissional. Não é. Risco país é isto que você acabou de ler: uma empresa reescrevendo uma lista, e um país que não está nela.

E repare em quem paga a conta.

Quem decidiu tirar a plataforma do ar não perdeu um centavo com isso. A empresa pagou a multa e seguiu operando no mundo inteiro. Quem perde a renda em setembro é o criador brasileiro que passou três anos construindo audiência dentro da plataforma e nunca foi consultado sobre nada disso.

A assimetria de quem decide e quem paga na conta do risco país.
quem decidiu tirar a plataforma do arnenhum custo diretoR$ 0quem construiu audiência por 3 anose nunca foi consultadoa renda

E isso não é sobre influenciador

Se você não ganha dinheiro postando, pode achar que o assunto não te alcança. Alcança, e é o mesmo mecanismo.

É ele que faz uma fábrica escolher o México, um fundo escolher o Chile, um servidor ficar na Irlanda. Ninguém anuncia que foi embora. Não há entrevista coletiva, não há carta de despedida. O capital simplesmente para de entrar, e o país descobre anos depois, olhando para um investimento que não veio e não sabendo direito de onde ele deixou de vir.

É por isso que essa é a conta mais fácil de um governo ignorar: ela nunca chega como fatura.

Não tem imposto novo para votar. Não tem manchete no dia seguinte. Não tem um culpado com nome e sobrenome para o eleitor cobrar. Tem uma lista, feita numa sala em outro país, e um país que não está nela.

Regra dura, o mercado aceita. Empresa nenhuma some porque o imposto é alto ou porque a lei é rigorosa: ela calcula, precifica e opera. O que ela não aceita é regra que muda de dono no meio do jogo. E quando não aceita, ela não discute e não avisa. Ela faz as malas e vai embora.

Ainda pode mudar

Uma ressalva final, porque ela é honesta e importa.

O Brasil pode entrar nessa lista depois. A exclusão foi registrada como sendo de um primeiro momento, e programas de plataforma costumam mesmo abrir por etapas. Se entrar, ótimo, e este texto envelhece bem.

Mas o padrão de quem escolhe onde pagar é sempre o mesmo, e não é ideológico: começa pelo lugar barato. Barato aqui não quer dizer pobre. Quer dizer previsível.

Fontes

  1. X, página oficial do Original Content Rewards Program, com os requisitos e a lista de países disponíveis
  2. X, página oficial do Creator Revenue Sharing, com a régua antiga de 5 milhões de impressões
  3. X, termos do Creator Revenue Sharing, com a exclusão expressa de Cuba, Irã, Coreia do Norte, Síria e Crimeia
  4. Punch, X scraps revenue sharing, unveils new creator rewards programme, com as datas e os 500 mil impressões
  5. The Next Web, X shuts down revenue sharing on September 7, the replacement only pays for original content
  6. Metrópoles, Antigo Twitter, X exclui brasileiros de novo programa de remuneração
  7. Tecnoblog, Twitter, agora X, começa a liberar monetização para usuários brasileiros, no fim de agosto de 2023
  8. ConJur, X paga R$ 28,6 mi em multas e Alexandre determina desbloqueio da plataforma
  9. O Tempo, Moraes autoriza o retorno do X, bloqueado há 39 dias no Brasil
  10. Agência Brasil, Moraes bloqueia contas da Starlink para garantir multas contra o X
  11. Al Jazeera, Brazil judge blocks Starlink accounts as X suspension deadline looms
  12. STF, transferência de R$ 18,35 milhões bloqueados da X e da Starlink para conta da União
  13. Wikipédia, bloqueio do X no Brasil, com a cronologia completa de 2024
  14. DataReportal, Digital 2026 Brazil, com o alcance publicitário do X no país

Fontes institucionais: X (Twitter), Metrópoles, ConJur, Agência Brasil, STF, DataReportal

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