Papo Econômico

A TV ficou mais barata, consertar a TV não: por que escola e plano de saúde sobem pra sempre

Entre janeiro de 2012 e junho de 2026, o televisor ficou 23,8% mais barato e consertar o televisor ficou 36,9% mais caro, segundo o IPCA. É o mesmo aparelho. Essa diferença tem nome, doença de custos, e explica por que mensalidade escolar e plano de saúde sobem muito acima da inflação, todo ano, sem que ninguém decida isso.

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A televisão da sua sala ficou mais barata. Consertar essa mesma televisão ficou mais caro. Não é força de expressão, e não é impressão sua: está nos dados oficiais de inflação do IBGE.

Entre janeiro de 2012 e junho de 2026, o subitem televisor do IPCA caiu 23,8%. Não é uma queda em relação à inflação, é queda no preço mesmo, em reais. No mesmo período, o subitem conserto de televisor subiu 36,9%.

O mesmo aparelho. Um ficou mais barato, o outro ficou quase 40% mais caro.

Variação acumulada de preço, janeiro de 2012 a junho de 2026, pelos subitens do IPCA. O aparelho é o mesmo nos dois casos.
-23,8%comprar a TV+36,9%consertar a TV

Por que a máquina barateia e a pessoa não

A resposta é produtividade, e ela é mais simples do que parece.

A fábrica que monta televisores fica mais eficiente todo ano. Robô melhor, processo melhor, escala maior, componente mais barato. O mesmo trabalhador na linha de montagem produz muito mais aparelhos por hora hoje do que produzia em 2012. Quando a produção por hora cresce, o preço unitário cai.

Agora pense no técnico que abre a TV na bancada para trocar uma placa. Ele leva hoje mais ou menos o mesmo tempo que levava em 2012. Não existe robô que dobre a velocidade dele. Diagnosticar um defeito, desmontar, soldar e testar é uma hora de atenção humana, e uma hora de atenção humana não acelera.

Só que o técnico não aceita ganhar sempre a mesma coisa. Ele vive na mesma economia que ficou mais produtiva, vê os salários subirem nos setores que ganharam produtividade, e se a oficina não acompanhar, ele muda de ramo. Então a oficina paga mais para segurar o profissional. E cobra mais de você.

E os números mostram que essa pressão existe de verdade: no mesmo período, o rendimento médio real do brasileiro subiu 18,2%, já descontada a inflação.

Repare no que acontece aqui. O salário do técnico sobe porque a economia ficou mais produtiva em outros lugares, não porque consertar TV ficou mais valioso. O preço do serviço é puxado pela produtividade de setores que não têm nada a ver com ele.

Isso tem nome: doença de custos

Quem descreveu esse mecanismo primeiro foram os economistas William Baumol e William Bowen, em 1966, num estudo sobre artes cênicas . Eles estavam tentando entender por que orquestras e teatros viviam em crise financeira permanente, mesmo com plateia cheia.

O exemplo que eles usaram é perfeito. Um quarteto de cordas de 1800 precisava de quatro músicos e quinze minutos para executar uma peça de quinze minutos. Um quarteto de cordas hoje precisa de quatro músicos e quinze minutos para executar a mesma peça. Dois séculos de tecnologia e a produtividade é exatamente a mesma.

Mas o salário desses músicos precisa competir com todos os outros empregos disponíveis numa economia que ficou muito mais rica. Resultado: o custo de uma apresentação sobe sem parar, para sempre, sem que ninguém esteja fazendo nada de errado.

Ficou conhecido como doença de custos de Baumol. O nome sugere defeito, mas não há defeito nenhum. É o resultado normal de uma economia onde alguns setores ficam mais produtivos e outros não podem ficar. O economista William Nordhaus mostrou depois, em trabalho publicado pelo NBER , que o padrão aparece de forma consistente quando se comparam setores de produtividade alta e baixa ao longo do tempo.

Agora troque a TV pela escola do seu filho

O conserto de televisão é um exemplo pequeno. O mesmo mecanismo age onde dói.

Uma aula é uma pessoa dando atenção a outras pessoas. Uma consulta é uma pessoa examinando outra. Um corte de cabelo, uma sessão de fisioterapia, um atendimento de enfermagem: tudo isso é hora humana que não acelera. E os números brasileiros mostram exatamente o que a teoria prevê.

Variação acumulada de preço, janeiro de 2012 a junho de 2026, IPCA. Valores nominais, sem desconto da inflação.
+124,8%índice geral(IPCA cheio)+248,4%ensino fundamental+229,3%plano de saúde

O IPCA cheio, que é a inflação oficial do país, acumulou 124,8% no período. O ensino fundamental acumulou 248,4%, praticamente o dobro. O plano de saúde, 229,3%.

Enquanto isso, no mesmo período e no mesmo país, o televisor caiu 23,8% e os aparelhos eletroeletrônicos em geral subiram apenas 36,4%, muito abaixo da inflação. Ou seja: em termos reais, eletrônico ficou bem mais barato e serviço com gente dentro ficou bem mais caro.

A parte honesta: não é só isso

Aqui vale a ressalva que separa análise de discurso pronto.

A doença de custos não explica sozinha o aumento da mensalidade escolar nem do plano de saúde. Plano de saúde tem envelhecimento da população, que aumenta o uso, e incorporação de tecnologia médica nova, que é cara por natureza. Educação tem crédito estudantil, política pública e mudança de demanda. Tudo isso pesa de verdade, e quem disser que é tudo um fenômeno só está simplificando.

O que a doença de custos garante é um piso. Tire da conta a ganância, tire a regulação, tire qualquer combinação de preços, tire o envelhecimento e a tecnologia. Ainda assim sobra o técnico na bancada, sobra o professor na sala, sobra a hora de trabalho humano que não fica mais rápida. E ela sozinha já garante que esses preços sobem em relação ao resto, indefinidamente.

Não é uma tese sobre culpa. É uma tese sobre aritmética.

Por que você ganha mais e sente que ganha menos

Agora junte as duas pontas, e desconte a inflação de tudo para comparar coisas iguais.

Variação real, já descontada a inflação, de janeiro de 2012 a junho de 2026. Renda pela PNAD Contínua, preços pelo IPCA.
sua renda+18,2%escola do seu filhoplano de saúde+55,0%+46,5%

Descontada a inflação, nesses catorze anos a renda média subiu 18,2%. A mensalidade do ensino fundamental subiu 55,0%. O plano de saúde subiu 46,5%.

Você ficou mais rico e mais pobre ao mesmo tempo, e depende inteiramente do que você tenta comprar. Se o seu consumo é eletrônico, roupa, eletrodoméstico, você ganhou poder de compra de verdade. Se o seu consumo é escola, saúde, cuidado, serviço feito por gente, você perdeu.

E aqui está a parte desconfortável: conforme um país fica mais rico, a fatia do orçamento das famílias que vai para serviços com gente dentro tende a crescer. Não porque alguém decidiu, mas porque é justamente isso que a máquina não consegue baratear.

O resumo de tudo

Tudo que a máquina faz fica mais barato. Tudo que só uma pessoa pode fazer fica mais caro.

Essa é a regra, e ela não tem conserto por decreto, porque não existe nada quebrado para consertar. Tabelar o preço da mensalidade não cria professor, e congelar o reajuste do plano não cria médico. O preço é o sintoma, não a doença.

Entender isso muda a pergunta que você faz. Deixa de ser “quem está me roubando” e passa a ser “o que eu faço sabendo que essa conta sobe todo ano”. A primeira pergunta rende indignação. A segunda rende planejamento.

Fontes

  1. IBGE, SIDRA tabela 1419, IPCA variação mensal por grupo e subitem (jan/2012 a dez/2019)
  2. IBGE, SIDRA tabela 7060, IPCA variação mensal por grupo e subitem (jan/2020 a jun/2026)
  3. IBGE, SIDRA tabela 6390, PNAD Contínua, rendimento médio mensal real habitualmente recebido
  4. William J. Baumol e William G. Bowen, Performing Arts: The Economic Dilemma (1966)
  5. William D. Nordhaus, Baumol's Diseases: A Macroeconomic Perspective, NBER Working Paper 12218 (2006)

Fontes institucionais: IBGE (SIDRA, IPCA), IBGE (PNAD Contínua), Baumol e Bowen (1966), NBER (Nordhaus, 2006)

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