Papo Econômico

O teto de 40% que o FMI simulou travaria R$ 250,6 bilhões em crédito no Brasil

O FMI calculou o que aconteceria se banco nenhum pudesse fechar um contrato que levasse o cliente a passar de 40% da renda comprometida com parcelas: R$ 250,6 bilhões em crédito não teriam sido concedidos, 5,6% do estoque das famílias. O corte não cai igual. Financiamento de veículo perderia R$ 91,7 bilhões, e a habitação não perderia nada.

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Mais de um em cada cinco reais de financiamento de veículo no Brasil foi para quem já tinha mais de 40% da renda comprometida com parcelas. Dívida em cima de dívida.

Esse número não é de uma ONG nem de um instituto de pesquisa. Saiu da avaliação que o Fundo Monetário Internacional fez do sistema financeiro brasileiro, e é o que está por trás de uma proposta simples de enunciar: e se o banco simplesmente não pudesse fechar esse contrato?

O que é comprometimento de renda

Comprometimento de renda é quanto do seu salário já está prometido para parcela antes de você gastar um real. Aluguel, cartão, financiamento do carro, consignado. Tudo que sai automaticamente todo mês.

A sigla técnica é DSTI, de debt service to income, ou serviço da dívida sobre renda. É uma conta de fluxo, não de saldo: não interessa quanto você deve no total, interessa quanto do que entra este mês já tem dono.

Entre quem tomou crédito no Brasil, essa fatia passa de um terço do salário.

Comprometimento de renda de quem tomou crédito no Brasil, 2025. Cada ponto vale 1% do que entra no mês. Média aparada a 1% por tomador, lida do painel B da Figura 16 do relatório do FMI, onde a série fica entre 35% e 37% ao longo de 2025.
mais de 1/3do salário já está comprometidoantes de você gastar um realo que já tem donoo que sobra para viverEsta é a média de quem tomou crédito.O comprometimento agregado das famílias,que inclui quem não deve nada, fica perto de 29%.

Vale insistir nessa distinção, porque ela é o erro fácil deste assunto. São duas métricas diferentes:

  • Agregado das famílias: perto de 29%, subindo de cerca de 22% em 2018. Entra todo mundo na conta, inclusive quem não tem uma dívida sequer.
  • Por tomador: mais de um terço, entre 35% e 37% em 2025. Só quem efetivamente tomou crédito.

A segunda é maior justamente porque tira do denominador quem não deve nada. É ela que descreve a situação de quem está pagando parcela, e é a que importa quando se fala em teto.

A conta que o FMI fez

O relatório rodou um exercício contrafactual sobre as concessões de crédito de 2025: e se nenhum banco pudesse assinar contrato que jogasse o cliente acima de 40% de comprometimento?

O estoque de crédito das famílias em dezembro de 2025 era de R$ 4.501,3 bilhões. Com o teto, teria ficado em R$ 4.250,7 bilhões.

A diferença é R$ 250,6 bilhões, ou 5,6% do estoque. Só nos contratos de um ano.

Onde o corte dói

O detalhe que muda o entendimento do assunto é que esse corte não cai igual. Ele se concentra onde o crédito é usado para empilhar dívida sobre quem já está no limite.

Quanto cada linha de crédito perderia com um teto de 40% de comprometimento de renda, em bilhões de reais. Simulação do FMI sobre as concessões de 2025, comparada ao estoque de dezembro de 2025.
R$ 250,6 bilhões a menos de crédito, distribuídos assimfinanciamento de veiculoR$ 91,7 bicredito pessoalR$ 68,7 biconsignadoR$ 60,8 bioutros creditosR$ 15,7 bicredito ruralR$ 8,3 bicartao de creditoR$ 5,4 bihabitacaonada

Financiamento de veículo perde quase um quarto da linha. Crédito pessoal não consignado perde quase um quinto. O consignado, que em percentual parece o menos atingido dos três, perde R$ 60,8 bilhões, quase o mesmo tanto que o crédito pessoal: o percentual escondia a magnitude porque a base de cada linha é muito diferente.

E aí aparece o outro lado do gráfico.

O que o teto não toca

Habitação não perde nada. Zero. Cartão de crédito perde R$ 5,4 bilhões de um estoque de R$ 715,5 bilhões, menos de 1%.

Isso não é acaso, é desenho da simulação. A nota da figura lista o que ficou de fora da conta:

  • hipoteca
  • pagamento à vista no cartão
  • parcelado lojista
  • rotativo do cartão
  • parcelado após o rotativo

Ou seja: o crédito mais caro do país fica fora do alcance dessa regra. Um teto de comprometimento de renda mira a originação de contratos longos, com parcela previsível, que é onde dá para calcular quanto do salário está sendo comprometido no momento da assinatura. O rotativo não funciona assim, ele acontece depois, quando a fatura não é paga.

Quem quiser atacar a proposta vai começar por aqui, e o ponto é legítimo. Vale registrar que ele não invalida a conta: só delimita o que ela mede.

O consignado que se renova para sempre

Junto do teto, o relatório sugere outra coisa, no parágrafo 61: limitar quantas vezes um empréstimo consignado pode ser renovado.

Faz sentido. Um empréstimo que se renova indefinidamente em cima de um salário garantido deixa de ser crédito e vira assinatura. A parcela nunca some do contracheque, só muda de contrato.

A ordem das coisas

Só que consignado é exatamente o que o governo Lula ampliou.

Em março de 2025 foi lançado o Crédito do Trabalhador, que levou o consignado para o trabalhador do setor privado com carteira assinada. Até janeiro de 2026, mais de R$ 101 bilhões em operações , a uma taxa média de 3,2% ao mês, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego.

3,2% ao mês parece pouco. Ao ano, com juros compostos, dá cerca de 46%. Para comparar com o custo do dinheiro no país, os juros básicos atualizados estão no painel de indicadores .

Depois veio o Desenrola, o programa de renegociação, relançado em maio de 2026 para limpar dívida.

Primeiro se facilitou o empréstimo. Depois se criou o programa para limpar a dívida do empréstimo.

Por que renegociar não resolve o mês seguinte

O Desenrola já tinha rodado uma vez. Fechou em maio de 2024 com o anúncio de cerca de 15 milhões de beneficiados, número do próprio governo.

No mesmo período, o total de inadimplentes no país caiu de 25,2 milhões para 23,1 milhões. Quinze milhões de nomes limpos, dois milhões a menos de inadimplentes. Enquanto uns saíam, outros entravam.

Não dá para concluir daí que os outros treze milhões voltaram a dever, e ninguém deveria afirmar isso: o estoque de inadimplentes também é alimentado por quem entra, e “beneficiado” inclui baixa automática de dívidas pequenas, que não é a mesma coisa que sair do vermelho. O que os dois números mostram, juntos, é mais simples: limpar o nome não muda o mês seguinte.

E é aqui que está a diferença que organiza o assunto inteiro:

  • Renegociação trata o estoque. Limpa o que já existe e devolve a pessoa para a mesma fila, com o mesmo banco e o mesmo limite.
  • Teto trata a originação. Impede o contrato de ser assinado.

Um é mutirão, e mutirão precisa ser refeito. Tanto que foi. O outro é regra, e regra fica.

Tem ainda um efeito de segunda ordem no mutirão que se repete: o banco aprende a esperar. Se a cada dois anos vem um programa de desconto, emprestar para quem provavelmente não vai pagar fica menos arriscado, porque parte do prejuízo será renegociada com desconto depois. O teto é a única das duas medidas que segura o banco na hora de emprestar.

E o preço disso

R$ 250,6 bilhões de crédito que não teria saído também é gente que não comprou carro, não trocou a geladeira, não capitalizou o negócio. Crédito negado não é só dívida evitada.

O próprio relatório é explícito quanto aos limites da conta: em nota de rodapé, avisa que a simulação não quantifica efeito sobre inadimplência nem sobre o capital dos bancos, e que uma avaliação completa exigiria microdados de tomador e de contrato.

Também não é uma ordem. O documento é uma nota técnica do programa de avaliação do setor financeiro, ligado à consulta do Artigo IV de 2026, que o board do FMI concluiu em 23 de julho de 2026 apoiando passos adicionais contra o endividamento das famílias. É recomendação com simulação junto, não condicionalidade.

O que o exercício entrega é o tamanho do trade-off, em reais. De um lado, R$ 250,6 bilhões de crédito a menos em um ano. Do outro, o fim do contrato que leva alguém de 40% para 55% de comprometimento.

Qual dos dois lados pesa mais é escolha política. Mas a conta, agora, está feita.

Fontes

  1. International Monetary Fund, Brazil: Financial Sector Assessment Program, IMF Country Report No. 26/192 (2026). Figura 16 (p. 41), parágrafos 45 e 61, nota de rodapé 24 e Annex I Figura 3 (p. 54)
  2. International Monetary Fund, IMF Executive Board Concludes 2026 Article IV Consultation with Brazil, PR26/257, 23 de julho de 2026
  3. Ministério do Trabalho e Emprego, Crédito do Trabalhador fortalece inclusão financeira e supera R$ 101 bilhões em operações

Fontes institucionais: Fundo Monetário Internacional (Country Report 26/192), Fundo Monetário Internacional (PR26/257), Banco Central do Brasil (via FSAP), Ministério do Trabalho e Emprego

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