Papo Econômico

Por que a maior safra de grãos da história está quebrando o agro brasileiro

O Brasil colhe a maior safra de grãos da história, 360,1 milhões de toneladas, e caminha para o pior ano de recuperação judicial no agro. Foram 517 pedidos no primeiro trimestre de 2026, alta de 33%, e R$ 38 bilhões de dívida envolvida. Os dois recordes não são coincidência: comida tem demanda inelástica, então produzir mais derruba o preço mais rápido do que aumenta a quantidade vendida.

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O Brasil vai colher a maior safra de grãos da história e, no mesmo ano, caminha para o recorde de recuperação judicial no agro.

Parece contradição. Não é. É o mesmo fato visto de dois lados, e a explicação é um conceito que quase ninguém nomeia quando fala do assunto.

Os dois recordes

De um lado, a safra. A Conab, no 10º levantamento da temporada 2025/26, projeta 360,1 milhões de toneladas de grãos, recorde da série, com a soja em 180,6 milhões de toneladas, também recorde.

Um aviso de precisão, porque esse erro circula muito: o milho não é recorde. São 140,2 milhões de toneladas, a segunda maior safra da série, não a maior. Quem diz “safra recorde de soja e milho” está errando metade da frase.

Do outro lado, a quebradeira. Foram 517 pedidos de recuperação judicial no agro no primeiro trimestre de 2026, alta de 33% sobre o mesmo período do ano anterior.

Esse número precisa de uma etiqueta antes de qualquer coisa: ele é de levantamento da Neot, uma empresa privada de tecnologia para gestão de processos de insolvência, divulgado pela imprensa. Não é dado de tribunal, não é do Conselho Nacional de Justiça, e a empresa tem interesse comercial no tema. Isso não invalida o número, mas define o que ele é.

Não é o pequeno produtor

A primeira reação de quem lê “recuperação judicial no agro” é imaginar o produtor pequeno, endividado, quebrando sozinho. Os dados dizem outra coisa.

O passivo total envolvido é de cerca de R$ 38 bilhões. Desse total, R$ 31,5 bilhões, ou 83%, estão concentrados em processos com passivo acima de R$ 30 milhões.

Passivo envolvido nos pedidos de recuperação judicial do agro no primeiro trimestre de 2026, em bilhões de reais. Levantamento da Neot, empresa privada de gestão de processos de insolvência, divulgado em julho de 2026.
R$ 38 bilhões de dívida em recuperação judicial no agroR$ 31,5 bi83% do totalestá em processos com passivo acima de R$ 30 milhõesR$ 6,5 bitodo o restoQuem quebra nesse volume não é quem planta dez alqueires.

E quando se olha quem entrou com o pedido, aparece a cadeia inteira, não só a lavoura.

Pedidos de recuperação judicial no agro por segmento, primeiro trimestre de 2026. Levantamento da Neot. Os cinco segmentos somam os 517 pedidos do trimestre.
517 pedidos, distribuídos assimprodutor rural305revenda de insumo83agroindústria e usina62logística e armazenagem41indústria de insumo26Quando a revenda, a usina e o caminhão também pedem, o problema não é do produtor.

Revenda de insumo quebra porque o produtor não pagou. A usina quebra porque a matéria-prima não chegou no preço combinado. A transportadora quebra porque o frete contratado não se pagou. É um efeito dominó dentro da mesma cadeia.

O conceito que ninguém nomeia

Agora a parte que explica os dois recordes ao mesmo tempo.

Comida tem demanda inelástica. Em português claro: ninguém come o dobro de arroz porque o arroz ficou mais barato. O consumo de alimento é preso ao número de pessoas e ao tamanho do estômago delas, não ao preço.

Isso muda tudo, porque na maioria dos mercados baratear vende mais. Se a passagem de avião cai pela metade, muita gente que não ia viajar viaja. Com soja não funciona assim.

E aí vem a consequência: quando a oferta cresce, o preço cai mais rápido do que a quantidade vendida sobe. O produtor vende mais sacas e recebe menos dinheiro no fim.

A safra recorde não é o consolo da crise. Ela é parte da crise.

A esteira: o que é racional para um é ruína para o conjunto

Se o preço está baixo, o que um produtor faz? Planta mais. É a decisão certa para ele: com mais área plantada, o custo fixo da fazenda se dilui em mais sacas e o custo por saca cai. É defesa, não ganância.

Os números da Conab mostram exatamente isso: a área plantada de soja cresceu 2,7% e a produção subiu 5,3%.

O problema é que todo produtor do país fez a mesma conta ao mesmo tempo. E a soma de milhares de decisões individualmente racionais derruba o preço de novo, o que empurra todo mundo a plantar mais ainda na safra seguinte.

Isso tem nome: falácia da composição, a ideia errada de que o que vale para uma parte vale para o todo. Levantar da cadeira num estádio lotado faz você enxergar melhor. Todo mundo levantando ao mesmo tempo não faz ninguém enxergar melhor, só deixa o estádio inteiro de pé.

No agro, a esteira é essa: correr mais rápido para ficar no mesmo lugar.

A tesoura que fecha por cima

Enquanto o preço cai por excesso de oferta desde a safra 2022/23, a outra lâmina da tesoura vem do custo do dinheiro. A Selic está em 14,25% ao ano desde 17 de junho de 2026, e os juros básicos atualizados ficam no painel de indicadores .

Juro alto encarece o crédito de custeio, encarece a rolagem da dívida antiga e encolhe o apetite do banco para renovar limite de quem já está apertado. Preço caindo de um lado, crédito fechando do outro, e o produtor no meio.

E tem uma coisa que costuma ser mal entendida sobre essa crise: ela não se resolve quando o preço subir de novo. A dívida contratada na safra ruim já está assinada, com prazo e taxa definidos, e ela atravessa as safras seguintes. Preço bom em 2027 melhora a receita daquele ano, não apaga o contrato de 2025.

A resposta do Estado

Diante de um mercado com excesso de oferta, o governo Lula anunciou o Plano Safra 2026/27 da agricultura empresarial com R$ 525,1 bilhões em crédito rural, sendo R$ 384,9 bilhões para custeio e comercialização e R$ 140,2 bilhões para investimento, com juros máximos entre 8% e 12,5% ao ano. O custeio empresarial caiu de 14% para 12,5%. A agricultura familiar tem outro programa, com R$ 97,3 bilhões.

Vale reter o que esses números são: dinheiro subsidiado para plantar mais, num mercado onde o preço já está caindo porque se plantou muito.

É preciso ser honesto sobre o limite dessa crítica. Nenhum estudo quantifica quanto do plantio extra veio do crédito subsidiado, e ninguém aqui está dizendo que o Plano Safra causou as recuperações judiciais. O ponto é sobre o desenho da política: o Estado financia a expansão da oferta com dinheiro barato e depois se surpreende com o preço na lona. E é a mesma política fiscal que sustenta o juro alto que fecha a torneira do crédito por cima.

O outro lado do trade-off também é real: sem crédito rural barato, parte dessa safra recorde simplesmente não existiria. A questão não é se o crédito ajuda a produzir, é o que acontece quando ele empurra a produção para dentro de um mercado que já não paga por ela.

Onde a crise está concentrada

Se a explicação fosse atraso ou falta de tecnologia, os pedidos apareceriam nas regiões mais pobres. Não é o que acontece.

Os dois estados com mais pedidos são Goiás, com 113, e Mato Grosso, com 98. Depois vêm Rio Grande do Sul com 62, Minas Gerais com 56 e Paraná com 54.

Goiás e Mato Grosso são a fronteira agrícola que mais cresceu nas últimas duas décadas, com a lavoura mais capitalizada e mais moderna do país. A crise está batendo justamente em quem mais investiu, porque quem mais investiu é quem mais tomou crédito.

“A série só cresceu porque a lei mudou”

Esse é o contra-argumento mais forte contra tudo o que está escrito acima, e ele merece resposta em vez de silêncio.

A Lei 14.112, de dezembro de 2020, passou a permitir que o produtor rural pessoa física peça recuperação judicial, o que antes era restrito à pessoa jurídica inscrita na Junta Comercial. Basta comprovar dois anos de atividade rural. Ou seja: parte do crescimento da série vem de gente que agora pode pedir e antes não podia.

Isso é verdade e precisa ser dito. Mas não explica o que está acontecendo agora, por três motivos:

  • Uma porta aberta em 2020 não produz alta de 33% em um único ano, seis anos depois. O efeito de mudança legal aparece como degrau, não como aceleração contínua.
  • A lei mudou o acesso do produtor pessoa física. Ela não explica revenda de insumo, agroindústria, usina e transportadora pedindo recuperação, que já podiam pedir antes.
  • E não explica os R$ 31,5 bilhões concentrados em passivos acima de R$ 30 milhões. Devedor desse tamanho não estava esperando a lei de 2020 para ter acesso a advogado.

A mudança legal ampliou a porta. Quem está passando por ela é outra história.

Duas contagens para o mesmo trimestre

Um último cuidado, e ele é do tipo que separa dado de manchete.

No mesmo primeiro trimestre de 2026, outro levantamento, o Monitor RGF, da consultoria RGF & Associados, contou 539 pedidos no agro, alta de 9,3%. A Neot contou 517 pedidos, alta de 33%.

Os dois números estão certos, porque medem coisas diferentes. A alta de 33% compara com o mesmo trimestre do ano anterior. A alta de 9,3% compara com o trimestre imediatamente anterior. Recortes diferentes, universos diferentes de empresas, resultados diferentes.

Nenhum dos dois é estatística oficial. São levantamentos privados, e quem cita qualquer um deles deveria dizer isso junto.

O que fica

Em 2025, os pedidos de recuperação judicial no agro somaram perto de 2.000 no ano inteiro. Só o primeiro trimestre de 2026 trouxe 517.

Pedidos de recuperação judicial no agro. A barra de 2025 é o ano fechado, cerca de 2.000 pedidos. Em 2026, a parte sólida são os 517 pedidos efetivamente registrados no primeiro trimestre e a parte tracejada é a projeção aritmética desse mesmo ritmo mantido pelos outros três trimestres. Levantamento da Neot.
2025 fechado contra 2026 no mesmo ritmo do 1º trimestre≈ 2.0002025, ano fechado517nesse ritmo, passa2026, só o 1º trimestreprojeção,não registro

Mantido esse ritmo, 2026 fecha acima de 2025 e vira o pior ano da série. É uma projeção condicional, não uma previsão: quatro trimestres iguais ao primeiro dariam cerca de 2.068 pedidos, e o trimestre seguinte pode vir melhor ou pior.

Mas o ponto do ano não depende dessa conta. Ele já está dado no que aconteceu: o país vai colher a maior safra de grãos da sua história enquanto a cadeia que a produziu bate recorde de pedido de socorro judicial.

Produzir muito e ganhar dinheiro pararam de ser a mesma coisa.

Fontes

  1. Money Times, Pedidos de recuperação judicial no agro do Brasil sobem 33% no 1º tri e podem bater recorde em 2026, aponta Neot (517 pedidos, R$ 38 bi, R$ 31,5 bi, segmentos, estados, cerca de 2.000 em 2025)
  2. Forbes Brasil, Pedidos de RJ no Agro Sobem 33% no 1º Trimestre e Indicam Novo Recorde em 2026, julho de 2026
  3. Conab, Acompanhamento da Safra Brasileira de Grãos, 10º levantamento da safra 2025/26, 14 de julho de 2026 (360,1 milhões de toneladas, soja 180,6 milhões, área de soja +2,7%, milho 140,2 milhões)
  4. Ministério da Agricultura e Pecuária, Plano Safra 26/27 destina R$ 525 bilhões para fortalecer a agricultura empresarial (R$ 384,9 bi de custeio e comercialização, R$ 140,2 bi de investimento, juros de 8% a 12,5% ao ano)
  5. Ministério do Desenvolvimento Agrário, Plano Safra da Agricultura Familiar 2026/2027 (R$ 97,3 bilhões)
  6. Banco Central do Brasil, histórico das taxas de juros fixadas pelo Copom (Selic em 14,25% ao ano desde 17 de junho de 2026)
  7. Lei nº 14.112, de 24 de dezembro de 2020, que permitiu ao produtor rural pessoa física pedir recuperação judicial
  8. Canal Rural, Recuperações judiciais no agro crescem mais de 9% no primeiro trimestre (539 pedidos no 1º tri de 2026, alta de 9,3% sobre o trimestre anterior, relatório Monitor RGF, da RGF & Associados)

Fontes institucionais: Conab, Banco Central do Brasil, Ministério da Agricultura e Pecuária, Ministério do Desenvolvimento Agrário

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