84 páginas, zero menções: o que o plano de governo de 2026 não diz sobre a conta
O programa de governo registrado no TSE tem 84 páginas e 24.681 palavras. Investimento aparece 82 vezes, sustentável 35, soberania 31. Superávit, corte de gastos e reforma da previdência aparecem zero vezes. Enquanto isso, a conta que o país precisa fechar é de 3,5 pontos do PIB por ano — R$ 464 bilhões — e as medidas do próprio documento somam 0,3 ponto.
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Ver o episódio no YouTubeVocê entra para votar e a conta já saiu impressa. O orçamento de 2027 chega ao próximo governo com a maior parte já comprometida, e ninguém precisou esperar a eleição de 2026 para decidir isso.
Então vale perguntar o que exatamente se escolhe em outubro.
O que o documento diz, contado palavra por palavra
O programa de governo registrado no TSE é o único lugar em que um candidato é obrigado a dizer, antes da eleição, o que pretende mudar. O do líder das pesquisas tem 84 páginas e 24.681 palavras.
Contando termo por termo, o que ele repete:
- investimento — 82 vezes
- sustentável — 35 vezes
- soberania — 31 vezes
E o que ele não diz:
- dívida — 4 vezes, e as quatro sobre a dívida das famílias: Desenrola, FIES
- superávit — zero
- corte de gastos — zero
- reforma da previdência — zero
As três palavras mais repetidas dizem para onde ir. Nenhuma delas diz com que dinheiro. E a dívida pública — essa que o mandato inteiro administra, e que decide quanto sobra para todo o resto — não é tratada uma única vez em 84 páginas.
Por que essa ausência importa
Mais de oito de cada dez reais do orçamento federal são obrigatórios por lei. Aposentadoria, salário de servidor, piso da saúde, piso da educação, benefício amarrado ao salário mínimo. Pelo Relatório de Acompanhamento Fiscal nº 115 da IFI, são R$ 2,17 trilhões já comprometidos na despesa primária de 2026, contra R$ 458 bilhões livres.
Aposentadoria contratada é dívida, e dívida se paga. Essa conta não devia ter esse tamanho — mas mesmo quem discorda disso está preso na mesma armadilha: com esse tanto travado, sobram três saídas para fechar a conta. Aumentar imposto, emitir dívida, ou mudar a regra que travou.
Imposto e dívida foram as duas portas usadas nos últimos anos, e as duas já estão rangendo.
E a trava não caiu do céu. Cada uma dessas regras foi escolha de alguém que governava, e dá para apertar ou para afrouxar. Nesses últimos quatro anos ela só apertou.
O tamanho do buraco
A dívida bruta saiu de 71,7% do PIB no fim de 2022 para 81,9% em junho de 2026. Dez pontos de PIB em um mandato.
Só de juros, o país pagou R$ 1,15 trilhão em doze meses — mais do que os R$ 1,08 trilhão da folha inteira do INSS no mesmo período. O país paga mais para rolar o que deve do que para pagar todos os aposentados do regime geral.
E para a dívida simplesmente parar de crescer — não cair, parar de crescer — a conta da IFI pede sair de um déficit estrutural de 1,4% do PIB para um superávit de 2,1%.
São 3,5 pontos do PIB por ano, todo ano. Cerca de R$ 464 bilhões.
O que o plano oferece contra isso
A pergunta que dá para fazer a um documento como esse é uma só, item por item: o que vai aumentar? Medindo cada promessa contra os 3,5 pontos, com leitura generosa:
| medida | quanto traz |
|---|---|
| tributação no topo | 0,2 ponto |
| corte de emendas | 0,1 ponto |
| eficiência do gasto | zero |
| soma | 0,3 ponto |
Taxar o andar de cima, no grosso, já foi feito neste mandato: offshore, fundo exclusivo, tudo aprovado e em vigor. E o déficit estrutural dobrou mesmo assim. O que resta taxar lá em cima depois disso traz 0,2. Cortar emenda pela via do debate com a sociedade traz 0,1, e isso já sendo otimista. Eficiência e qualidade do gasto entram sem número, sem prazo e sem mecanismo — então trazem zero.
Soma 0,3 contra um buraco de 3,5. O plano cobre menos de um décimo do que ele mesmo precisa.
A âncora oferecida para o resto está escrita no documento: o resultado fiscal virá da retomada do crescimento econômico. Ou seja, a conta fecha se a economia crescer o bastante. Isso é torcida, escrita em documento oficial e registrada em cartório eleitoral. E torcida não paga juro.
E ainda adiciona custo do outro lado
O mesmo documento propõe o fim da escala 6x1, com 40 horas semanais e sem redução de salário. E valorização real do salário mínimo — que é justamente o indexador de boa parte do gasto obrigatório.
Quer dizer: a única trava que esse plano promete apertar é a que já engessa o orçamento.
O ponto
Ninguém precisa acreditar que o próximo presidente vai resolver isso em quatro anos. A pergunta é mais simples: o documento em que ele se compromete, e que vale como promessa registrada, chega a mencionar o problema?
Em 84 páginas, não. Zero vezes.
O que se escolhe em outubro é o nome de quem vai assinar embaixo de uma conta que já está impressa. E quem pede quatro anos para administrá-la não escreveu uma linha sobre ela.
Fontes
- Instituição Fiscal Independente, Relatório de Acompanhamento Fiscal nº 115 (agosto de 2026) — despesas obrigatórias sujeitas ao limite, resultado estrutural e superávit necessário para estabilizar a dívida
- Banco Central do Brasil, série 13762 do SGS — Dívida Bruta do Governo Geral (% do PIB)
- Banco Central do Brasil, série 4616 do SGS — juros nominais, fluxo mensal do setor público consolidado
- Secretaria do Tesouro Nacional, Resultado do Tesouro Nacional — série histórica mensal, benefícios previdenciários do RGPS
- Tribunal Superior Eleitoral, DivulgaCandContas — programas de governo registrados pelos candidatos
Fontes institucionais: Instituição Fiscal Independente (Senado Federal), Banco Central do Brasil, Secretaria do Tesouro Nacional, Tribunal Superior Eleitoral