O imposto que você não vota: os R$ 10,3 bilhões de furto de energia que entram na conta de luz de quem paga
A Aneel calculou em R$ 10,3 bilhões o custo do furto de energia em 2024. Quem não furta paga essa conta na tarifa. Existem dois sistemas de arrecadação no Brasil, e você só vota em um deles.
Assista no vídeo
Ver o episódio no YouTubeA linha que você nunca viu na conta
Abra a sua conta de luz. Está lá a energia que você consumiu, os impostos, a bandeira tarifária. O que não está escrito em lugar nenhum é a parte que você paga porque outra pessoa não pagou.
A Aneel publicou em junho de 2025 o relatório de perdas do sistema de distribuição. As chamadas perdas não técnicas, que é o nome oficial do gato, custaram R$ 10,3 bilhões em 2024. O texto da agência é direto: essas perdas “representaram, no ano passado, um custo da ordem de R$ 10,3 bilhões”.
Esse dinheiro não evapora. A Agência Brasil registra o efeito em uma frase que vale reler: o custo “impacta a tarifa de todos os consumidores regulares”. Consumidor regular é quem paga. A conta do furto é rateada com quem não furtou.
Não é um problema espalhado, é um problema concentrado
O relatório da Aneel mostra onde isso acontece. Dez distribuidoras concentram 74% das perdas não técnicas do país. Só duas, a Light, no Rio de Janeiro, e a Amazonas Energia, somam 34,1% do total nacional.
Isso importa porque muda o diagnóstico. Não é um país inteiro furtando um pouquinho. É um problema territorial, concentrado em áreas específicas, e em boa parte delas quem manda no fio não é a distribuidora.
Dois sistemas de arrecadação no mesmo país
O Estado brasileiro cobra de você e tem nome, endereço e prazo. Desde 2023, a EXAME mapeou ao menos 37 atos do governo ou propostas aprovadas pelo Congresso que aumentam a carga tributária. É uma medida nova a cada cinco semanas, aproximadamente.
Vale ser preciso sobre o que esse número é, porque precisão aqui é o ponto: o levantamento da EXAME conta tanto atos já em vigor quanto propostas aprovadas no Congresso com endosso do governo. Não são 37 impostos novos no seu bolso hoje. São 37 movimentos na direção de arrecadar mais.
Você pode odiar cada um dos 37. Pode votar contra quem os propôs. Pode entrar na Justiça. O sistema é ruim, é caro, e é seu inimigo declarado, mas ele existe por escrito e tem a quem recorrer.
O outro sistema não.
Quando o custo do gato entra na sua tarifa, ninguém te consultou. Não há alíquota publicada, não há lei, não há recurso, não há eleição. A cobrança chega embutida em uma linha que já estava lá. Você paga sem saber quanto, sem saber para quem, e sem poder discordar.
Por que isso é economia, e não página policial
A violência costuma ser tratada como assunto de segurança pública. Este texto trata de outra coisa: do que ela cobra.
O gato é o exemplo mais limpo porque tem número oficial e chega na sua casa todo mês. Mas o mecanismo se repete em qualquer lugar onde o custo de um crime é diluído em um preço: no seguro, no frete, na grade da janela, no que a loja cobra a mais porque a rua é o que é.
Nenhuma dessas coisas melhora o produto que você comprou. Você paga a mesma energia, o mesmo pão, o mesmo aluguel, e paga mais caro. A diferença virou custo de operar em um lugar onde o Estado não chegou.
Você já paga por segurança
Olhe em volta e veja o que comprou. A grade, a câmera, o seguro, o condomínio, o app que rastreia o carro. Some a isso a parte da sua tarifa que cobre o que o vizinho não pagou.
Nada disso apareceu num programa de governo. Ninguém pediu seu voto para instituir. Não tem alíquota, não tem prazo, não tem recurso, e não tem eleição em que você possa mudar.
São dois sistemas de arrecadação no mesmo país. Você só vota em um.
Fontes
- Aneel, relatório com os níveis de perdas técnicas e não técnicas de 2024 no sistema de distribuição, onde consta o custo da ordem de R$ 10,3 bilhões
- Agência Brasil, o furto de energia no país gerou custo de R$ 10,3 bilhões em 2024 e impacta a tarifa de todos os consumidores regulares
- EXAME, levantamento que mapeou ao menos 37 atos do governo ou propostas aprovadas pelo Congresso que aumentam a carga tributária desde 2023
Fontes institucionais: Aneel, Agência Brasil, Exame