FGTS: a poupança obrigatória que rende menos e você não pode sacar
Todo mês tiram 8% do seu salário, prendem o dinheiro e pagam cerca de 6% ao ano. No mesmo período o Tesouro Selic, sem risco, paga mais que o dobro, e até a poupança, que você saca quando quiser, rende mais. A perda não é contra a inflação: é custo de oportunidade contra a taxa livre de risco, num fundo obrigatório e trancado.
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Ver o episódio no YouTubeTodo mês, 8% do seu salário somem do seu bolso e vão para o FGTS. Você não escolhe. E, tirando algumas situações, não pode sacar quando quiser. Em troca, o fundo te paga 3% ao ano mais a TR, uma taxa que quase não sai do lugar. Com a partilha de lucro por cima, isso deu 6,05% em 2024 . Parece proteção. Mas veja o que acontece com esse dinheiro preso.
O mesmo dinheiro, lugares diferentes
No mesmo ano de 2024, o Tesouro Selic, que não tem risco de crédito e você resgata quando quer, pagou quase o dobro do FGTS. E hoje, com a Selic em 14,25% ao ano , a distância só aumentou. O mesmo dinheiro, no lugar certo, renderia mais que o dobro. Multiplique essa diferença por uma vida inteira de trabalho e você tem uma entrada de imóvel, um pedaço de aposentadoria, dinheiro que evapora sem ninguém avisar.
A poupança, que você pode sacar, rende mais
Aqui está a ironia cruel. Hoje, até a poupança, aquela caderneta simples que você resgata quando quiser, rende mais que o FGTS, que é obrigatório e fica trancado. Ou seja, o dinheiro que te obrigam a guardar rende menos que o que você guardaria por vontade própria. Isso acontece porque a poupança, quando a Selic passa de 8,5% ao ano, paga 0,5% ao mês mais a TR, enquanto o FGTS fica travado em 3% ao ano mais a TR. A parte fixa da poupança é o dobro da do FGTS.
Mas não é o fundo que perde da inflação
Aqui vale um cuidado, porque a conversa de boteco erra nesse ponto. O FGTS não vem perdendo da inflação. Pelo contrário: ele bateu o IPCA na maioria dos últimos anos , e desde 2024 uma decisão do Supremo garante que o fundo renda pelo menos a inflação . O problema não é esse. O problema é o custo de oportunidade: rendendo perto de 6%, o FGTS deixa na mesa tudo o que a taxa livre de risco paga a mais, e ainda te prende o dinheiro. E pense no detalhe: o Supremo só precisou obrigar o fundo a empatar com a inflação porque, por muito tempo, ele nem isso garantia. Ninguém processa quem trata bem o seu dinheiro.
Para onde vai o seu rendimento
Enquanto você recebe pouco, o dinheiro trabalha. O FGTS financia crédito barato, habitação, obras. Vão te dizer que ele financia a sua casa, e financia. Só que com o seu próprio dinheiro, rendendo abaixo do mercado, que você pega de volta na forma de empréstimo, com juros. Você é o banco e o cliente ao mesmo tempo.
E tem a pegadinha final. Quem entra no saque-aniversário e é demitido não pode nem tirar o saldo do fundo. Trocou o acesso ao próprio dinheiro, justo na hora do desespero, por uma migalha antecipada uma vez por ano.
O próprio administrador já acendeu o alerta
Não é o mercado reclamando. Foi o presidente da Caixa, Carlos Vieira, que administra o fundo, quem avisou , com todas as letras, que “vamos ter uma crise muito grande do FGTS”. O lucro distribuído aos trabalhadores em 2024 foi de quase R$ 13 bilhões , um número grande, mas que não muda a lógica: o fundo depende de emprego formal e de saldo positivo para se sustentar, e novos saques pressionam o caixa.
Os números de juros e rendimentos, dia a dia, estão no painel de indicadores do site.
Em uma frase
FGTS não é poupança. É um empréstimo compulsório que o trabalhador faz para o sistema, no pior rendimento para dinheiro sem risco, e ainda paga para fazer. Te obrigam a guardar, no lugar que rende menos, e trancam a porta.
Fontes
- InvestNews, com lucro, FGTS rende acima da inflação, mas perde da poupança
- Agência Brasil, FGTS distribuirá quase R$ 13 bi do lucro de 2024
- Conselho Curador do FGTS, distribuição de R$ 12,9 bilhões aos trabalhadores (Ministério do Trabalho e Emprego)
- IstoÉ Dinheiro, lei determina que o FGTS renda pelo menos a inflação (decisão do STF)
- Jornal da Paraíba, crise muito grande no FGTS: o alerta do presidente da Caixa
- Banco Central do Brasil, taxa Selic
Fontes institucionais: Banco Central do Brasil, InvestNews, Agência Brasil, Conselho Curador do FGTS, STF, Jornal da Paraíba