Papo Econômico

4.666 empresas pediram socorro em dois anos e a arrecadação bateu recorde: o que quebrou a Casas Bahia não foi imposto, foi juro

Em dois anos, 4.666 empresas brasileiras entraram em recuperação judicial. No mesmo período cinco tributos voltaram, subiram ou foram criados, e a arrecadação federal bateu recorde. Em maio de 2026, o imposto sobre o lucro das empresas subiu 33,1% em termos reais. A Casas Bahia é onde dá para ver a máquina por dentro: ela não quebrou de imposto, quebrou da conta do dinheiro que pegou emprestado quando o dinheiro era barato.

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Três empresas grandes pediram socorro na mesma semana de agosto de 2026. A Casas Bahia no dia 16, a Marabraz no dia 23, a Braskem no dia 24. Uma vende geladeira, outra vende sofá, a terceira faz plástico. Três negócios que não têm quase nada em comum, a não ser o país onde operam.

Elas são três de quarenta e cinco.

O tamanho da coisa

Em 2024, cerca de 2,2 mil empresas brasileiras entraram em recuperação judicial. Em 2025 foram 2.466, alta de 13%, o pior ano desde que a Serasa Experian mantém a série. Somando os dois anos, 4.666 empresas pediram socorro à Justiça para não fechar.

Pedidos de recuperação judicial no Brasil, por ano, pelos dados da Serasa Experian. 2025 é o maior número desde o início da série.
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Só no ano de 2026, 45 empresas entraram com pedido de recuperação extrajudicial, somando 174,5 bilhões de reais. Quem fez essa soma foi o Observatório de Recuperação Extrajudicial. Não é conta nossa, e vale dizer isso porque somar dívida de empresa por conta própria é o tipo de coisa que produz número errado com cara de número certo.

A lista, com o débito de cada uma:

  • Braskem, 24 de agosto, recuperação extrajudicial, 56 bilhões de reais, o equivalente a 10,9 bilhões de dólares. O pedido está no formulário 6-K depositado na SEC.
  • Casas Bahia, 16 de agosto, recuperação judicial, 298 lojas fechadas em doze meses.
  • Raízen, 60 bilhões de reais. Saiu do grau de investimento e foi direto para a recuperação extrajudicial.
  • Pão de Açúcar, 4,5 bilhões de reais.
  • Marabraz, 23 de agosto, 140 milhões de reais. Essa é pequena do lado das outras, e é justamente por isso que ela conta: não é só gigante que está caindo.

O outro lado da mesma conta

Agora o número que não fecha com o resto da história. Em maio de 2026, o imposto de renda e a contribuição social sobre o lucro das empresas somaram 36,7 bilhões de reais, alta de 33,1% em termos reais, ou seja, já descontada a inflação. No acumulado de janeiro a abril, a arrecadação federal chegou a 1,056 trilhão de reais, 5,41% acima do mesmo período do ano anterior, também em termos reais.

Empresa quebrando em série, e o imposto sobre o lucro dessas empresas subindo um terço.

O que o governo fez no meio disso

Parte da dificuldade do varejo não é culpa de governo nenhum. O mundo mudou, as pessoas compram no celular, a concorrência virou global, e loja de rua apanha disso no mundo inteiro. Vale registrar isso antes de qualquer outra coisa, porque sem essa parte a conversa fica desonesta.

Dito isso, vale olhar o que aconteceu com a carga tributária de quem já estava apanhando. Cada item aqui tem data:

  • 1 de março de 2023. PIS, Cofins e Cide voltam integralmente sobre gasolina e etanol. Combustível é custo de todo mundo que entrega alguma coisa.
  • Outubro de 2024. O Supremo valida a volta do PIS e da Cofins sobre a receita financeira das empresas no Lucro Real. Na prática, o dinheiro que a empresa deixa aplicado para conseguir pagar o mês também passa a ser tributado.
  • 1 de janeiro de 2024. O IPI sobre armas sobe de 29,25% para 55%.
  • 2026. Passa a valer a retenção de 10% na fonte sobre dividendos acima de 50 mil reais por mês, pela Lei 15.270 de 2025.

E a reforma tributária que deveria simplificar tudo isso, a Emenda Constitucional 132 de 2023, tem transição até 2033. O sistema que praticamente todo mundo concorda que está errado fica de pé por mais sete anos.

A Casas Bahia, que é onde dá para ver a máquina

Nenhuma dessas empresas quebrou vendendo pouco. Todas quebraram no mesmo lugar: na conta do dinheiro que pegaram emprestado quando o dinheiro era barato.

A Casas Bahia é onde essa camada fica à vista. A loja vendia a geladeira parcelada, só que o crediário não ficava com ela. Ela empacotava as prestações num fundo, vendia a cota para o mercado, e girava com o dinheiro que entrava na hora. O varejo de eletro brasileiro sempre foi um negócio financeiro disfarçado de loja.

Com juro a 2% ao ano, isso funciona lindamente. Com a Selic a 14%, o cliente atrasa a prestação, o fundo cobra a loja, e a loja não tem de onde tirar.

Aqui é preciso ser exato com o número que saiu na imprensa, porque ele é fácil de usar errado. A Casas Bahia registrou prejuízo de 10,1 bilhões de reais no segundo trimestre, mas 9,1 bilhões desse total são baixas contábeis não recorrentes. O prejuízo ajustado foi de 978 milhões, uma melhora de 76% sobre o mesmo trimestre do ano anterior. Ou seja: nove de cada dez reais daquele número são a empresa admitindo que o que estava no balanço não valia aquilo. E a auditoria, a EY, se absteve de opinar sobre as demonstrações, citando incerteza sobre a continuidade da companhia.

Isso é pior do que a manchete, não melhor. Só é pior por outro motivo.

O ponto

A Casas Bahia não quebrou de imposto. Ela quebrou de juro. E o juro está em 14% porque o país não fecha a própria conta, a mesma conta que bateu recorde de arrecadação neste ano.

Você abre uma empresa achando que ela é sua. Ela é sua no risco. Na hora de dividir, você é sócio minoritário do seu próprio negócio.

Fontes institucionais: Serasa Experian, Receita Federal, Observatório de Recuperação Extrajudicial, Braskem (formulário 6-K, SEC)

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