Efeito cobra: por que pagar R$ 100 por javali morto pode aumentar o número de javalis
Santa Catarina aprovou pagar R$ 100 por javali abatido. Em Hanói, em 1902, um pagamento por rato morto fez a cidade terminar com mais ratos. O que a história ensina sobre desenhar incentivos.
A Assembleia Legislativa de Santa Catarina aprovou, em 15 de julho de 2026, o PL 287/2026 , que cria um pagamento de R$ 100 por javali abatido. O texto ainda depende da sanção do governador e pode ser vetado.
A intenção é boa e o problema é real. Mas existe uma pergunta que precisa ser feita antes de qualquer programa desse tipo: o dinheiro está comprando menos javali, ou está comprando carcaça entregue? Não é a mesma coisa. E a diferença entre as duas já produziu desastre em outros lugares.
O caso de Hanói
A história mais famosa sobre isso é a das cobras de Déli, na Índia colonial. Vale registrar de saída: ela é anedótica , ninguém encontrou o documento. O nome pegou porque o economista alemão Horst Siebert usou a imagem no livro Der Kobra-Effekt , de 2001, para descrever um tipo específico de fracasso: quando a solução não apenas falha, ela alimenta o problema.
O caso realmente documentado é outro, e é pior. Em 1902, em Hanói , a administração colonial francesa quis reduzir a população de ratos da cidade. Criou um pagamento de 1 centavo por rato morto. Para receber, bastava entregar a cauda.
Semanas depois, os fiscais começaram a ver ratos vivos, sem cauda, circulando pela cidade . Os caçadores pegavam o rato, cortavam a cauda, recebiam o pagamento e soltavam o animal de volta no esgoto, para que se reproduzisse e gerasse mais caudas. Houve quem passasse a criar ratos.
O incentivo não falhou por incompetência dos caçadores. Falhou porque mediu a coisa errada. Quem paga por cauda compra cauda. Quem quer menos rato precisa comprar menos rato.
De onde veio o javali
Aqui está a parte que quase não aparece no debate: o javali no Brasil também é filho de um incentivo.
Nos anos 1990, na onda das carnes exóticas, a criação de javali em cativeiro foi legalizada e estimulada , com matrizes importadas. Em 1998, o IBAMA proibiu a importação e a criação. Muitos criadores, sem destino comercial para os animais e com medo de punição, simplesmente abriram o portão e soltaram os javalis no mato.
O javali que hoje destrói lavoura não caiu do céu. Ele é o resultado acumulado de um incentivo que deu errado e de uma proibição que não pensou no que fazer com o estoque existente.
Hoje a espécie está registrada em 1.536 municípios de 22 unidades da federação, segundo levantamento citado pelo IBAMA . Uma fêmea pode ter até duas ninhadas por ano, com até oito filhotes cada. É por isso que o estoque não acaba sozinho.
O que o projeto faz, e o que ele não faz
Um detalhe importante costuma passar batido: abater javali já é autorizado no Brasil desde 2013, pela Instrução Normativa 03 do IBAMA , que classificou a espécie como exótica invasora nociva. O manejo é registrado em sistema próprio.
Ou seja, o projeto catarinense não libera nada que já não fosse permitido. Ele coloca dinheiro público em cima de uma atividade que já era legal. O texto exige cadastro no órgão ambiental, autorização prévia, comprovação do abate e permissão do proprietário quando a caça ocorrer em área particular. São salvaguardas relevantes, e são exatamente elas que vão determinar se o programa compra resultado ou compra carcaça.
Não é teoria: o que aconteceu no Texas
Programas de recompensa por porco selvagem existem há anos em condados do Texas. O resultado documentado pelo Texas Parks and Wildlife e pela imprensa local é desanimador: a população não caiu.
Dois problemas apareceram. O primeiro foi fraude, com animais caçados fora do condado sendo entregues como se fossem de dentro. O segundo é mais sério: quando o animal vira fonte de renda, cria-se incentivo para transportar e soltar porcos em propriedades privadas, para garantir a colheita futura. O bicho deixa de ser praga e passa a ser estoque.
O erro não é incentivar
Vale ser claro: incentivo funciona. É a ferramenta mais poderosa que existe em política pública. O erro não é usar dinheiro para resolver um problema.
O erro é pagar pelo esforço em vez do resultado. Quando o Estado se torna comprador garantido de alguma coisa, sempre aparece alguém disposto a produzir aquela coisa. Vale para carcaça de javali e vale para qualquer subsídio.
Quem quer menos javali não compra carcaça. Compra lavoura sem dano, área limpa verificada, monitoramento de população com medição independente. É mais difícil de administrar, e é justamente por isso que funciona: não existe atalho para fraudar um resultado que é medido no campo.
O incentivo responde exatamente àquilo que você paga. Nunca àquilo que você gostaria de ter pago.
Assista no vídeo
Ver o episódio no YouTubeFontes
- Historic UK, The Cobra Effect (a história de Déli é anedótica)
- Great Hanoi Rat Massacre (1902)
- Atlas Obscura, The Great Hanoi Rat Massacre of 1902
- Horst Siebert, Der Kobra-Effekt (2001)
- Alesc, projeto de incentivo financeiro para controle do javali-europeu
- Correio Braziliense, Santa Catarina aprova projeto que paga R$ 100 por javali abatido
- IBAMA, Manejo e controle do javali
- ((o))eco, Javali no Brasil: tá tudo dominado
- Texas Parks and Wildlife, Nuisance Wildlife: Wild Pigs
- Texas Standard, Why a bounty on feral pigs hasn't solved the problem
Fontes institucionais: Alesc, IBAMA, Texas Parks and Wildlife