Papo Econômico

Brasil Soberano 3: o governo socorreu o tarifaço que o mercado já tinha resolvido sozinho

O governo anunciou R$ 18,5 bilhões em crédito subsidiado para empresas atingidas pelo tarifaço, o terceiro pacote em doze meses. Só que a empresa grande pega dinheiro a 6,5% enquanto o próprio governo se financia a 14,25%, e os exportadores dos setores mais atingidos já tinham reposto sozinhos o que perderam nos Estados Unidos.

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O governo vai emprestar dinheiro a 6,5% ao ano para a empresa grande investir, enquanto ele mesmo paga 14,25% para tomar emprestado . A diferença entre essas duas taxas não some. Ela sai do seu bolso, em juros, em imposto e em inflação. E em 22 de julho de 2026 essa conta ficou maior.

Naquele dia o governo anunciou o Brasil Soberano 3 : R$ 18,5 bilhões em crédito subsidiado para quem foi atingido pelo tarifaço. É o terceiro pacote em doze meses. Somando os três, R$ 69,5 bilhões.

Tem três coisas nessa história que quase ninguém está mostrando.

Por que o crédito sai mais barato do que o próprio governo consegue tomar

A Selic está em 14,25% ao ano , o custo do dinheiro para o próprio governo. A taxa média de mercado do capital de giro, para a empresa que não exporta e vai ao banco como qualquer um, passa de 23% (dados de mercado do Banco Central). Agora olhe as condições do Brasil Soberano : a empresa grande pega capital de giro a 9,8% e recursos para investir a 6,5%.

Custo do crédito ao ano: mercado x Brasil Soberano, com a Selic como referência
Selic 14,25%: o custo do dinheiro para o próprio governo23,2%mercado(capital de giro)9,8%Brasil Soberano(giro, empresa grande)6,5%Brasil Soberano(investimento)

Ou seja: o programa empresta a metade, ou menos, do que custa o dinheiro para o governo. Não é o banco que abre mão dessa diferença. É o Tesouro.

Quem paga a diferença

Quando o crédito sai abaixo do custo do governo, alguém cobre o buraco. Esse mecanismo se chama equalização: o Tesouro paga a diferença entre a taxa subsidiada e a taxa real de mercado. E o Tesouro paga do jeito que sempre paga, emitindo dívida.

Dívida pública é imposto no futuro. A conta não desaparece porque o anúncio foi bonito. Ela volta para o mesmo lugar de sempre: você.

Sessenta e nove bilhões depois, a tarifa subiu

No mesmo dia do anúncio entrou em vigor uma tarifa de 25% dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, pela Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 . A justificativa americana cita o comércio digital e os serviços de pagamento eletrônico, o que inclui o Pix, e a pressão sobre empresas de tecnologia.

O resultado dessa queda de braço: há um ano o Brasil era o 13º país mais tarifado pelos Estados Unidos. Agora é o 2º, atrás só da China. Foram R$ 69,5 bilhões em pacotes de socorro, e a tarifa aumentou do mesmo jeito.

O detalhe que ninguém mostra: o mercado achou outro comprador sozinho

Aqui está a parte mais importante, e a que some do noticiário. Nos dois setores mais atingidos, o que se perdeu nos Estados Unidos foi mais que reposto no resto do mundo, segundo os dados de exportação do MDIC/Secex .

Produtos siderúrgicos caíram US$ 721,2 milhões nas vendas para os EUA e subiram US$ 1.673,1 milhões para os demais países. Veículos e peças caíram US$ 162,4 milhões para os americanos e subiram US$ 2.508,1 milhões para o resto do mundo.

Variação das exportações, 2026 x 2024, em US$ milhões: perda nos EUA (vermelho) x ganho no resto do mundo (verde)
0-721,2EUA+1.673,1resto do mundoSiderúrgicos-162,4EUA+2.508,1resto do mundoVeículos e peças

O mercado achou outro comprador sozinho. Sem pacote, sem tabela de juros subsidiada, sem equalização. O comprador mudou de endereço, e os exportadores foram atrás.

E o dinheiro do primeiro pacote foi para quem

Vale olhar para trás. No primeiro pacote , dos R$ 19,6 bilhões aprovados, R$ 13,3 bilhões foram para empresas grandes. Micro, pequenas e médias ficaram com R$ 6,3 bilhões, distribuídos em 982 operações.

Brasil Soberano, primeiro pacote: R$ 19,6 bilhões aprovados, por porte da empresa
R$ 13,3 biempresas grandesR$ 6,3 bimicro, pequenas e médias

Para entrar na fila, basta 1% do faturamento vir de exportação atingida, segundo as regras do programa . Quem vende só no mercado interno paga a taxa cheia do banco e fica estruturalmente de fora, porque o plano só atende exportador atingido.

Em uma frase

O Estado não salvou a exportação. A exportação se salvou. O Estado financiou quem já ia sobreviver, com dinheiro emprestado a 14,25% e repassado a 6,5%. A conta dessa diferença sempre chega, em juros, em imposto e em inflação.

Fontes

  1. Banco Central do Brasil, taxa Selic (Copom, junho de 2026)
  2. BNDES, Programa Brasil Soberano Competitividade (condições e elegibilidade)
  3. USTR, Section 301 Action on Brazil (tarifa de 25%)
  4. Federal Register, Section 301 Brazil (determinação e ação)
  5. MDIC/Secex, ComexStat (dados de exportação)
  6. ndmais, Plano Brasil Soberano: o que saiu do papel um ano depois (R$ 13,3 bi x R$ 6,3 bi)
  7. Correio Braziliense, Brasil Soberano 3: regras, setores e valores

Fontes institucionais: Banco Central do Brasil, BNDES, MDIC/Secex, USTR

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