O Brasil forma 100 e alfabetiza 2
De cada 100 jovens brasileiros de 15 anos, 2 leem no nível em que a OCDE considera possível separar um fato de uma opinião. Os outros 98 passaram de ano do mesmo jeito. A nota que mede a escola no Brasil é a nota da prova multiplicada pela taxa de aprovação, e é isso que explica os dois números.
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Os outros 98 passaram de ano do mesmo jeito.
Esses dois números vêm de lugares diferentes e é a combinação deles que incomoda. O primeiro é do Pisa. O segundo é da forma como o Brasil decidiu medir a própria escola.
O nível que a OCDE chama de saber separar fato de opinião
O Pisa organiza a leitura em seis níveis. No prefácio do relatório 21st-Century Readers, a OCDE escreve que apenas 9% dos estudantes de 15 anos dos países membros tinham proficiência de leitura suficiente para distinguir fatos de opiniões quando a tarefa exigia entender pistas implícitas de conteúdo ou de fonte. Era 7% em 2000.
Esse patamar corresponde aos Níveis 5 e 6, onde o estudante compreende textos longos, lida com ideias abstratas ou contraintuitivas e estabelece distinções entre fato e opinião. A média de estudantes nesses níveis nos países da OCDE é de 8,7%.
No Brasil, o Inep publica a distribuição completa. Em Leitura, no Pisa 2018:
Dois em cada cem. E o Nível 2, que na tabela aparece como o corte dos 50%, não é uma linha inventada aqui: a OCDE o adota como o nível mínimo de proficiência que todo jovem deveria ter ao final do ensino médio, ligado à meta de educação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.
No ciclo seguinte, o de 2022, o quadro é o mesmo em Leitura e pior em Matemática.
A conta que o Brasil escolheu fazer
Agora o segundo número, o dos 98 que passaram de ano.
O Ideb, que é o índice oficial de qualidade da educação básica, não é uma média de notas de prova. Ele é uma multiplicação. A Nota Técnica nº 1 do Inep define assim: o Ideb é a nota do Saeb, padronizada de 0 a 10, multiplicada pelo indicador de rendimento, que é a média das taxas de aprovação da etapa e varia de 0 a 1.
Escrito de outro jeito: Ideb = nota da prova × taxa de aprovação.
O desenho tinha uma razão. Nos anos 2000 era comum a escola exibir boa média de prova porque tinha empurrado os alunos mais fracos para fora, e o índice precisava enxergar isso. O componente de fluxo foi criado exatamente para punir esse tipo de maquiagem.
Só que ele também criou uma alavanca. Se um dos dois fatores sobe, o produto sobe. E aprovar é a coisa mais barata que uma rede de ensino pode fazer.
Na divulgação de 2023, o indicador de rendimento subiu nas duas etapas: de 0,89 para 0,93 nos anos finais do ensino fundamental e de 0,86 para 0,91 no ensino médio. Ou seja, a cada 100 alunos do ensino médio, os aprovados passaram de 86 para 91.
Uma ressalva honesta: 2021 foi ano de escolas fechadas e participação atípica, então a comparação com 2023 não sustenta afirmação de tendência de longo prazo. E o Ideb de 2023 subiu também porque a proficiência se mexeu, não só o fluxo. O ponto aqui não é negar a alta. É notar do que ela é feita.
A lei que descreve isso já tem nome
Chama-se lei de Goodhart: quando uma medida vira meta, ela deixa de ser uma boa medida.
O exemplo clássico não é da educação. É do hospital avaliado por taxa de sobrevivência que começa, na margem, a recusar o caso grave. Ninguém precisa mentir. Basta que a régua premie um comportamento e ele apareça.
Na educação brasileira, a régua premia aprovar. E o resultado é medido em outro lugar, no Pisa e no Inaf, onde a aprovação não conta.
Vinte e três anos sem sair do lugar
Se fosse um problema de uma geração azarada, apareceria como um vale numa série. Não aparece.
O Indicador de Alfabetismo Funcional mede a população de 15 a 64 anos, que é o pessoal que já saiu da escola. No levantamento de 2024, 29% estão em analfabetismo funcional, cerca de 40 milhões de pessoas, o mesmo patamar de 2018. A fatia no nível proficiente, o mais alto da escala, oscila entre 8% e 12% desde 2001.
Vinte e três anos de série histórica sem melhora nesse nível. O período atravessa os governos FHC, Lula, Dilma, Temer, Bolsonaro e Lula de novo. Nenhum deles moveu o indicador, e a maior parte desse tempo esteve sob governos do PT.
O que isso quer dizer pra você
Um adulto que não consegue avaliar uma afirmação não deixa de decidir. Ele decide do mesmo jeito, só que pela frase que soa bem.
É o mesmo cidadão que compra o curso de renda extra, que entra na pirâmide do amigo, que assina o consignado sem ler a taxa. E é ele que vota na promessa em vez do resultado, porque conferir resultado exige exatamente a leitura que ele não recebeu.
Aí o círculo fecha. Quem não consegue auditar um número é a mesma pessoa que deveria cobrar a escola que o formou. O sistema fabrica o próprio fiscal, e fabrica ele sem as ferramentas.
E não precisa de má-fé nenhuma para isso acontecer. Consertar educação custa vinte anos. Um mandato dura quatro. A conta chega sempre no colo do próximo, enquanto aprovar todo mundo é de graça e ainda melhora a estatística que o próprio governo divulga.
Uma última coisa, para não virar panfleto: a progressão continuada nasceu de um problema real. Reprovar em massa aumenta evasão, e a evasão cai desproporcionalmente sobre o aluno pobre. A crítica que se sustenta não é “voltem a reprovar”. É que tiraram a reprovação e não puseram nada no lugar dela.
Fontes
- OCDE, PISA 21st-Century Readers: Developing Literacy Skills in a Digital World (2021), relatório completo
- Inep, Relatório Brasil no Pisa 2018
- Inep e DAEB, Nota sobre o Brasil no Pisa 2022
- Inep, Nota Técnica nº 1, concepção do Ideb
- Inaf, Indicador de Alfabetismo Funcional, resultados de 2024 (Ação Educativa e Instituto Paulo Montenegro)
- Todos Pela Educação, destaques dos resultados do Ideb e do Saeb 2023