1971: a porta que ninguém fechou (por que salário e produtividade se separaram)
Depois que os EUA suspenderam a conversão do dólar em ouro, a produtividade disparou e o salário real ficou para trás. Os números, verificados na fonte.
Em 15 de agosto de 1971, Richard Nixon suspendeu a conversão do dólar em ouro. A moeda perdeu a âncora, e o governo ganhou uma coisa nova: a capacidade de imprimir praticamente sem limite. Não foi o fim formal do padrão-ouro (o câmbio só passou a flutuar de vez em 1973), mas foi o momento em que uma porta se abriu.
Por décadas, produtividade e salário nos Estados Unidos subiram quase juntos. O trabalhador ficava com aquilo que produzia. A partir do fim dos anos 1970, essa conta se separou, e nunca mais se juntou.
O dado que dói
O salário real por hora do trabalhador americano em 1973 era US$ 23,68. Em 2018, 45 anos depois, era US$ 22,65. Ajustado pela inflação, ele não subiu, caiu . No mesmo período, cada trabalhador passou a produzir quase o dobro.
Um estudo da RAND colocou número no buraco: o trabalhador mediano ganha cerca de US$ 50 mil por ano. Se a renda tivesse acompanhado o crescimento da economia, seriam US$ 92 mil. Sumiram cerca de US$ 42 mil por ano.
Por que 1971 importa
O fim da conversão em ouro não causou a divergência sozinho. Ele abriu a porta, e as políticas das décadas seguintes andaram por ela. Moeda sem âncora significa que dinheiro novo pode ser criado sem limite. E dinheiro novo não chega igual para todo mundo: chega primeiro ao banco, depois ao dono de ativo, e por último ao trabalhador, quando o preço já subiu. É o efeito Cantillon.
Desde 1971, o dólar perdeu cerca de 87% do poder de compra. O trabalhador produz mais do que nunca e compra menos do que os pais compravam.
Não é conspiração. É aritmética: quem está perto da impressora ganha; quem está longe, o trabalhador e o poupador, perde.