Papo Econômico

100 anos de bolsa: 4% das ações criaram toda a riqueza, e a ação mediana perdeu dinheiro

Um estudo novo analisou quase 30 mil ações e 100 anos de bolsa americana. Quase 60% destruíram dinheiro, a ação mediana rendeu -6,9%, e só 4% das empresas criaram toda a riqueza líquida do mercado. A lição não é fugir da bolsa, é diversificar.

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Um professor da Arizona State University, Hendrik Bessembinder , analisou 29.754 ações e cerca de 100 anos da bolsa americana, de 1926 a 2025. E achou o número que nenhum vendedor de curso de day trade quer que você veja: quase 60% dessas ações destruíram dinheiro ao longo da vida. A ação mediana, na vida inteira, rendeu -6,9%.

Antes de qualquer coisa, um aviso de honestidade: isso é um working paper, um estudo novo que ainda não passou pela revisão de pares. Os números batem com um trabalho anterior do mesmo autor, de 2018 , então a história é sólida. Mas vamos com a cautela que o assunto merece.

A média mente

Se quase 60% perderam e a mediana deu -6,9%, como o mercado como um todo pode ter subido tanto? Porque na média o conjunto rendeu mais de 30.000%.

A diferença entre a média e a mediana é o coração da coisa. Quando poucos ganhadores gigantes puxam a conta pra cima, a média vira uma ilusão: quase ninguém teve aquele resultado. A mediana, o sujeito do meio da fila, é quem conta a verdade da maioria. E a verdade da maioria foi perder dinheiro.

mediana-6,9%a maioria das ações: perto de zero ou perdendoa cauda dos gigantespuxa a média pra +30.000%
A distribuição dos retornos é torta. A massa das ações se amontoa perto de zero ou no prejuízo. Uma cauda fininha de gigantes, lá na direita, é o que faz a média disparar. Por isso a média engana e a mediana, -6,9%, conta a história de quem está no meio da fila.

Os 4% que fizeram tudo

Aqui vem a parte mais brutal. Só 4% das empresas, 1.082 ações, criaram toda a riqueza líquida da bolsa em um século. As outras 96%, somadas, deram zero.

Uma palavra importa nessa frase: líquida. Não é o ganho bruto. É o ganho acima do que um título seguro teria pago no mesmo período, um empréstimo ao governo americano rendendo juros sem sustos. Ou seja: fora esse punhado de 4%, o restante do mercado, junto, não pagou nem o prêmio de ter corrido risco.

das ações4%os outros 96%da riqueza líquida que a bolsa criou100% veio desses 4%
1.082 empresas, 4% do total, criaram toda a riqueza líquida da bolsa americana em 100 anos. Os outros 96%, somados, deram zero acima de um título seguro. Escolher uma ação ao acaso é apostar contra esse desenho.

E ainda tem: só cerca de 28% das ações bateram o mercado, quase todas por pouco. Bater o índice é a exceção, não a regra.

Está cada vez mais concentrado

O clube dos gigantes está encolhendo. Em 2016, metade de toda a riqueza da bolsa vinha de 89 empresas. Hoje vem de apenas 46.

A Apple sozinha criou cerca de US$ 5 trilhões. E as cinco maiores valem mais de um quinto de tudo que a bolsa gerou em um século. O topo pesa mais a cada ano.

valor de mercado criado, em trilhões de dólaresApple5,02Nvidia4,58Microsoft3,40Alphabet2,55Amazon2,35as 5 maiores, juntas, valem mais de um quinto de tudo que a bolsa criou em 100 anos
As cinco maiores empresas da bolsa americana. A Apple sozinha criou cerca de US$ 5 trilhões em valor. Juntas, as cinco valem mais de um quinto de toda a riqueza gerada em um século.

Atenção: isso NÃO quer dizer que a bolsa é ruim

Aqui é onde quase todo mundo erra a leitura. Se a maioria das ações perde, a conclusão apressada seria “então fica fora da bolsa”. Errado.

O mercado inteiro rendeu perto de 10% ao ano e gerou quase US$ 91 trilhões de riqueza. A bolsa, como um todo, é uma máquina espetacular. O que perde não é o mercado, é a ação sozinha.

Escolher uma única ação é apostar que você vai acertar justamente uma daquelas 4%. É comprar um bilhete numa loteria onde 96% dos números não pagam nem o prêmio do risco. O mercado inteiro ganhou. A agulha, quase sempre, não.

O índice de Sharpe: quanto você ganha por susto

Existe uma forma de medir isso: o índice de Sharpe. A ideia é simples. Ele mede quanto de retorno você recebe por cada tijolo de risco que carregou. Retorno alto com pouco tremor: Sharpe alto, bom negócio. Retorno igual com muito tremor: Sharpe baixo, negócio ruim.

Uma ação sozinha treme demais e não te paga por esse susto. Ela sobe 40% num ano, cai 30% no outro, e no fim entrega um retorno que não compensou o coração na mão. Sharpe baixo.

Agora junta várias ações. O tranco de uma compensa o de outra, o solavanco do conjunto diminui, mas o retorno médio se mantém. O Sharpe sobe. Diversificar não é ganhar mais, é ganhar o mesmo correndo menos risco. Na finança, isso é o mais perto que existe de um almoço grátis.

carteira diversificadamesmo retorno, tranco menor, Sharpe alto1 ação sozinha:treme demais e não paga pelo susto, Sharpe baixo
A linha vermelha é uma ação sozinha: sobe e desce em solavancos, muito risco para o retorno que entrega. A linha dourada é uma carteira diversificada: sobe mais suave, com o mesmo retorno e muito menos tremor. Menos susto pelo mesmo ganho é um Sharpe maior.

Já quem faz o contrário, quem caça a small cap desconhecida sonhando com 1.000% de um dia pro outro, corre mais risco pra ganhar menos, na média. E na média, até o título mais seguro teria pago mais. Aqui vale um lembrete de precisão: o estudo americano usa os Treasury bills dos EUA como esse título seguro. No Brasil, a referência mais próxima na cabeça das pessoas é o CDI. É a mesma ideia, o dinheiro parado sem risco, só que a placa muda de país.

O segredo das vencedoras não foi um foguete

E como foram, afinal, as tais 4% que fizeram tudo? O segredo delas não foi subir 100% num único ano. Foi entregar cerca de 13% ao ano, sem parar, por décadas. Juros compostos e paciência. O foguete que sobe 1.000% e some não constrói riqueza. O crescimento chato, constante e longo, constrói.

A lição de 100 anos de bolsa é sem graça, e é exatamente por isso que funciona: não caça a agulha, compra o palheiro inteiro, e deixa o tempo trabalhar.

Fontes

  1. Hendrik Bessembinder, One Hundred Years in the U.S. Stock Markets (2026), SSRN 6438198, W. P. Carey / Arizona State University
  2. Hendrik Bessembinder, Do Stocks Outperform Treasury Bills? (2018), Journal of Financial Economics, SSRN 2900447
  3. Michael Mauboussin (X): resumo verbatim dos números do abstract
  4. Índice de Sharpe: retorno por unidade de risco (William F. Sharpe) e diversificação (Harry Markowitz)
  5. Post original, @opapoeconomico

Fontes institucionais: Hendrik Bessembinder, SSRN, Índice de Sharpe

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